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Isto não é para todos


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  • 9. Ep. Final — O último a fazer algo por alguém

    12:37||Season 1, Ep. 9
    Marcelo Palma cresceu sem saber que iria trabalhar com mortos. Aos 7 anos, o pai levou-o consigo a uma diligência - "espera, temos que ir só ali a um sítio" - e quando desceu do carro deparou-se com o primeiro cadáver da sua vida. Passou uma semana sem dormir. Jurou que nunca mais. E passou mais de uma década a repetir esse juramento ao pai, que tem a mesma profissão.Quando precisou de trabalho, o pai comprou-lhe um fato e uns sapatos. Duas semanas depois, Marcelo estava a vestir mortos.Ganhou notoriedade em 2024 ao participar no reality show Secret Story, onde o seu segredo era precisamente este: maquilha cadáveres. Quis usar a visibilidade para dar a conhecer uma profissão que quase ninguém escolhe. "Era uma das missões que eu vim ao programa: dar a conhecer e que mais jovens também quisessem fazer."O trabalho é a 24 horas. "Estás à mesa com a tua família na passagem de ano, às 3 da manhã, e acontece - tens que ir." O desafio técnico maior são os hematomas e as feridas: tentar que a pessoa "pareça o mais possível com a realidade, tal como antes de falecer". Os pedidos das famílias são sempre respeitados - às vezes chegam com uma fotografia como referência.Quando os avós morreram, foi ele a tratá-los. "Eu fiz questão de ser eu a preparar, tanto a vestir a minha avó como o meu avô. Quem melhor do que eu?"O que o mantém é uma ideia simples e profunda: "Sentir-me útil de poder ser a última pessoa a fazer algo por alguém. Isso é, sem dúvida, o que mais me motiva neste trabalho."Este episódio marca o fim da primeira temporada de Isto Não é para Todos. Contou com a produção de Beatriz Machado, David Almeida, Francisco Bernardes e Inês Lopes, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.

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  • 8. Ep. 8 — O vínculo que não se pede, mas acontece

    10:20||Season 1, Ep. 8
    Anabela Martins entrou nos cuidados domiciliários a idosos quase por acaso, através de uma oportunidade que surgiu num serviço de apoio local. Cinco anos depois, é isso que a define, e que a desafia. "A profissão exige uma grande responsabilidade. Estamos a lidar com vidas humanas e pessoas que muitas vezes estão em situações extremamente delicadas."O trabalho leva-a a casas onde a solidão é o móvel mais presente. Idosos em condições habitacionais precárias, famílias sem recursos, emergências que chegam sem avisar - quedas, crises, perdas. "Temos uma grande escassez de meios, quer seja a nível de equipamento ou até mesmo de pessoal."O que ninguém conta é a ligação que se forma. "Passamos tanto tempo com estas pessoas que acabamos por criar um vínculo afetivo extremamente profundo." Quando um utente morre, a separação é uma forma de luto. Anabela aprendeu a lidar com isso focando-se no que deu: "Fui capaz de proporcionar-lhes conforto e muito apoio durante o tempo que estivemos juntos."Em casa, o impacto também se faz sentir. Tem um filho pequeno e os turnos de noite, fins de semana e feriados subtraem momentos que não voltam. "Há momentos em que me sinto bastante culpada por não conseguir estar com ele." Mas continua. A motivação vem de onde menos se espera - "das pequenas coisas, basta um sorriso, um agradecimento, ou até mesmo a sensação de ter ajudado alguém a melhorar a qualidade da sua vida."O reconhecimento público ainda não chegou à altura do esforço. "Lidar com esta falta de valorização em relação à profissão não é fácil."Este podcast contou com a produção de Maria Tavares, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 7. Ep. 7 — A inclusão não é só uma palavra bonita

    15:16||Season 1, Ep. 7
    Ana Paula Souza passou mais de 14 anos a trabalhar com crianças e jovens que o sistema educativo nem sempre sabe receber. Começou como professora do ensino regular, mas foi atraída para a educação especial pelos alunos que mais precisavam de ajuda. "Tive alunos que me motivaram a seguir esta área, que eram os que precisavam de algum modo. E eu gostei muito de conversar com eles."Especializou-se no Porto, fez mestrado, e hoje percorre vários estabelecimentos do mesmo agrupamento - do pré-escolar ao 9.º ano. Tem 12 alunos sob a sua responsabilidade. Para cada um existe um dossier de avaliação, um conjunto de medidas educativas específicas e um plano de trabalho que Ana Paula muitas vezes constrói à meia-noite, em casa. "Às vezes trabalho até à uma da manhã a fazer coisas para a escola."O trabalho obriga-a a ser muita coisa ao mesmo tempo. "Temos que ser psicólogos, temos que ser terapeutas, temos que ser tudo." Cada aluno tem uma problemática diferente - cognitiva, motora, emocional - e as respostas têm de ser individualizadas. Os recursos humanos e materiais raramente chegam. "Não conseguimos dar aquilo que nós queríamos dar."Mas a razão para continuar é simples: "A carreira na educação especial é um percurso motivante e gratificante, porque é trabalhar com aquelas pessoas que mais precisam de nós." E é preciso ter perfil para isso. "Porque nem todas as pessoas têm vocação para trabalhar com pessoas com limitações, com deficiências."A inclusão, insiste Ana Paula, não se decreta, constrói-se todos os dias, aluno a aluno. "É uma missão diária."Este podcast contou com a produção de Lídia Felipe, Tiago Silva e Mariana Malta, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 6. Ep. 6 — O sorriso de quem limpa o que os outros não veem

    08:53||Season 1, Ep. 6
    Maria Salomé Duarte Martins tem 55 anos, mora em Viseu, os dois filhos emigraram e ela ficou. Faz sete anos que trabalha como empregada de limpeza numa escola, entra às sete da manhã e sai à uma. "Tenho despesas para pagar, tenho o meu trabalho, já tenho este ritmo, levanto-me às 6 da manhã, e está tudo bem."Salomé tem o 12.º ano e um curso de técnicas educativas. Não foi exatamente uma escolha - foi "uma opção", como ela própria distingue -, mas faz o trabalho com uma disposição que impressiona. "Eu ando sempre a rir, e sou até muito alegre." Toma sempre um café antes de começar, limpa sete salas, dá-se bem com alunos, professores e auxiliares, e conhece o ambiente escolar por dentro e por fora.O trabalho tem as suas sombras. Depois de uma operação à mão direita, sentiu que lhe eram atribuídas mais tarefas do que deveria aguentar. "Psicologicamente fez-me um bocado mal, é verdade." Mas não guarda rancor, prefere focar-se no que controla.O salário mínimo é o que recebe, e não chega. "Acho que aquilo que recebemos não é suficiente." Quanto ao futuro da profissão, é direta: "Não é para toda a gente, porque é mesmo assim - em primeiro lugar, também temos de saber trabalhar em equipa, que não é muito fácil hoje em dia."Nas escolas, as pessoas que asseguram a limpeza são muitas vezes também mães, confidentes e primeiros socorros emocionais de quem passa por elas. Salomé sabe disso e não se queixa.Este podcast contou com a produção de Andrea Soares, Laura Nunes e Matilde Faria, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 5. Ep. 5 — Quando o que tens nas mãos são vidas

    10:25||Season 1, Ep. 5
    Sara Marques acabou de sair da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a licenciatura em enfermagem. O primeiro posto de trabalho foi na Unidade de Cuidados Continuados de Sabrosa, onde os utentes chegam fragilizados a dois níveis - o corpo e a cabeça -, e onde os turnos não têm horas certas. "Não estás com a família desde as três da tarde até ao dia a seguir às 8 horas da manhã. Tens que lidar com todo o tipo de personalidades, vemos muito pouco e ainda estamos a correr vários riscos."Há três turnos: manhã, tarde e noite. O mais exigente é o "tarde-noite" - domingo à tarde até segunda de manhã. Na manhã, banhos e colheitas. Na tarde, conforto e fisioterapia. Na noite, vigília. "Quando estás ali, o que tu tens nas tuas mãos são vidas, não são objetos."Sara ainda não acompanhou nenhuma morte em serviço, mas fê-lo durante o estágio. Descreve a experiência como a necessidade de colocar uma capa: "É como se naquele momento existisse uma capa muito grande que tu metes, e parece que estes sentimentos estão ali prontos. Tu não te podes deixar afetar por aquilo." A parte mais difícil, garante, não é ver, é dar a notícia à família.O que a mantém no trabalho não é o salário - "o que nós recebemos hoje em dia, os subsídios de risco que nós não temos, os horários sobrecarregados" - mas a razão simples de gostar de pessoas. "Continuar a prestar os meus cuidados enquanto conseguir, até porque gosto de conviver com pessoas."Este podcast contou com a produção de Pedro Sousa, Martim Pinheiro e Diogo Sousa, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 4. Ep. 4 — O fungo, o queijo e o amor pela casa

    21:30||Season 1, Ep. 4
    Na Quinta da Pena, em Seia, o queijo é coisa de família. Edite Pessoa começou há quarenta anos com um rebanho próprio de ovelhas. Hoje, são as filhas - Lúcia e a irmã - que gerem a queijaria, compram leite a produtores do concelho e fabricam Queijo Serra da Estrela DOP e Queijo de Seia. A mãe ainda está lá, de mãos e sabedoria disponíveis. "Ensinei-as a fazer o queijo, e elas gostam disto e estão a continuar."O processo começa às 8 da manhã - às 5 e meia nas alturas mais fortes -, com o aquecimento do leite cru, a adição do cardo, o corte da massa, o soro a escorrer, as formas, as câmaras frias. Cada queijo passa 15 dias na primeira câmara, virado todos os dias, e pode ficar mais três ou quatro meses na segunda. O segredo, dizem, está no leite: "Se o leite não vier em boa qualidade, o produto também não pode sair bom."Nem tudo corre bem. Houve um ano que ficou gravado como o pior: um fungo entrou na queijaria e destruiu toda a produção. "Aí foi a pior parte da minha vida de passar." Ainda assim, algo impediu o fecho. "Obrigatoriamente nós queríamos fechar e algo mais forte mexeu em mim para eu não fechar."Lúcia não disfarça o custo pessoal de manter o negócio vivo. "Já me prejudiquei muitas vezes em termos pessoais, neste percurso, porque eu gosto muito de tudo o que faço. Muito mesmo. Deixei muitas coisas em termos pessoais para pôr a queijaria em frente."O reconhecimento chega por vezes de longe: um chefe com estrela Michelin que veio propositadamente mostrar a queijaria à filha. "Foi muito engraçado, mas muito especial."Este podcast contou com a produção de João Mota, Ivan Simões e Lara Almeida, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 3. Ep. 3 — O mar não perdoa, mas prende

    13:23||Season 1, Ep. 3
    José Pedro começou a andar ao mar aos 13 anos, tirou o curso de pescador e aos 16 estava já embarcado de vez. Ainda passou pela Suíça, mas o mar chamou-o de volta. Hoje, com 24 anos de bordo no mesmo barco - herdado do primo do pai, que o herdou do pai -, é o mestre da embarcação. Natural da Póvoa de Varzim, diz que a pesca "vai de descendência" e que já não quer que vá mais."Nós pescadores já nem queremos que os nossos filhos venham para aqui." A razão é simples: os jovens têm outras opções e a vida no mar, aos olhos de quem a conhece por dentro, é dura demais para desejar a outro. O lugar dos portugueses nas traineiras vai sendo preenchido por indonésios - já representam cerca de 85% da mão de obra no setor da Póvoa. "Vai começar a invadir isto, não vamos ter hipóteses."A rotina semanal começa ao domingo à noite, com saída a partir de Matosinhos. José governa o barco quase sem dormir: "Estou sempre aqui acordado. E mesmo quando eu durmo, é com um olho aberto e o outro fechado." Quando regressa a terra, o trabalho fica no cais. "A minha esposa até começa a rir. Não me conta nada: se apanhei peixe, se não apanhei."Nesta vida há medos que ficam. O dia em que uma vaga de dez metros ameaçou engolir um companheiro enredado nas próprias redes. A irmã que sobreviveu ao naufrágio de um arrastão cortado ao meio por um navio de carga. "O mar é um medo que ainda vai. É um medo."Este podcast contou com a produção de Afonso Azevedo, Claudete Salvador e Patrícia Vicente, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.