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Isto não é para todos

Ep. 4 — O fungo, o queijo e o amor pela casa

Season 1, Ep. 4



Na Quinta da Pena, em Seia, o queijo é coisa de família. Edite Pessoa começou há quarenta anos com um rebanho próprio de ovelhas. Hoje, são as filhas - Lúcia e a irmã - que gerem a queijaria, compram leite a produtores do concelho e fabricam Queijo Serra da Estrela DOP e Queijo de Seia. A mãe ainda está lá, de mãos e sabedoria disponíveis. "Ensinei-as a fazer o queijo, e elas gostam disto e estão a continuar."

O processo começa às 8 da manhã - às 5 e meia nas alturas mais fortes -, com o aquecimento do leite cru, a adição do cardo, o corte da massa, o soro a escorrer, as formas, as câmaras frias. Cada queijo passa 15 dias na primeira câmara, virado todos os dias, e pode ficar mais três ou quatro meses na segunda. O segredo, dizem, está no leite: "Se o leite não vier em boa qualidade, o produto também não pode sair bom."

Nem tudo corre bem. Houve um ano que ficou gravado como o pior: um fungo entrou na queijaria e destruiu toda a produção. "Aí foi a pior parte da minha vida de passar." Ainda assim, algo impediu o fecho. "Obrigatoriamente nós queríamos fechar e algo mais forte mexeu em mim para eu não fechar."

Lúcia não disfarça o custo pessoal de manter o negócio vivo. "Já me prejudiquei muitas vezes em termos pessoais, neste percurso, porque eu gosto muito de tudo o que faço. Muito mesmo. Deixei muitas coisas em termos pessoais para pôr a queijaria em frente."

O reconhecimento chega por vezes de longe: um chefe com estrela Michelin que veio propositadamente mostrar a queijaria à filha. "Foi muito engraçado, mas muito especial."

Este podcast contou com a produção de João Mota, Ivan Simões e Lara Almeida, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.

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  • 9. Ep. Final — O último a fazer algo por alguém

    12:37||Season 1, Ep. 9
    Marcelo Palma cresceu sem saber que iria trabalhar com mortos. Aos 7 anos, o pai levou-o consigo a uma diligência - "espera, temos que ir só ali a um sítio" - e quando desceu do carro deparou-se com o primeiro cadáver da sua vida. Passou uma semana sem dormir. Jurou que nunca mais. E passou mais de uma década a repetir esse juramento ao pai, que tem a mesma profissão.Quando precisou de trabalho, o pai comprou-lhe um fato e uns sapatos. Duas semanas depois, Marcelo estava a vestir mortos.Ganhou notoriedade em 2024 ao participar no reality show Secret Story, onde o seu segredo era precisamente este: maquilha cadáveres. Quis usar a visibilidade para dar a conhecer uma profissão que quase ninguém escolhe. "Era uma das missões que eu vim ao programa: dar a conhecer e que mais jovens também quisessem fazer."O trabalho é a 24 horas. "Estás à mesa com a tua família na passagem de ano, às 3 da manhã, e acontece - tens que ir." O desafio técnico maior são os hematomas e as feridas: tentar que a pessoa "pareça o mais possível com a realidade, tal como antes de falecer". Os pedidos das famílias são sempre respeitados - às vezes chegam com uma fotografia como referência.Quando os avós morreram, foi ele a tratá-los. "Eu fiz questão de ser eu a preparar, tanto a vestir a minha avó como o meu avô. Quem melhor do que eu?"O que o mantém é uma ideia simples e profunda: "Sentir-me útil de poder ser a última pessoa a fazer algo por alguém. Isso é, sem dúvida, o que mais me motiva neste trabalho."Este episódio marca o fim da primeira temporada de Isto Não é para Todos. Contou com a produção de Beatriz Machado, David Almeida, Francisco Bernardes e Inês Lopes, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 8. Ep. 8 — O vínculo que não se pede, mas acontece

    10:20||Season 1, Ep. 8
    Anabela Martins entrou nos cuidados domiciliários a idosos quase por acaso, através de uma oportunidade que surgiu num serviço de apoio local. Cinco anos depois, é isso que a define, e que a desafia. "A profissão exige uma grande responsabilidade. Estamos a lidar com vidas humanas e pessoas que muitas vezes estão em situações extremamente delicadas."O trabalho leva-a a casas onde a solidão é o móvel mais presente. Idosos em condições habitacionais precárias, famílias sem recursos, emergências que chegam sem avisar - quedas, crises, perdas. "Temos uma grande escassez de meios, quer seja a nível de equipamento ou até mesmo de pessoal."O que ninguém conta é a ligação que se forma. "Passamos tanto tempo com estas pessoas que acabamos por criar um vínculo afetivo extremamente profundo." Quando um utente morre, a separação é uma forma de luto. Anabela aprendeu a lidar com isso focando-se no que deu: "Fui capaz de proporcionar-lhes conforto e muito apoio durante o tempo que estivemos juntos."Em casa, o impacto também se faz sentir. Tem um filho pequeno e os turnos de noite, fins de semana e feriados subtraem momentos que não voltam. "Há momentos em que me sinto bastante culpada por não conseguir estar com ele." Mas continua. A motivação vem de onde menos se espera - "das pequenas coisas, basta um sorriso, um agradecimento, ou até mesmo a sensação de ter ajudado alguém a melhorar a qualidade da sua vida."O reconhecimento público ainda não chegou à altura do esforço. "Lidar com esta falta de valorização em relação à profissão não é fácil."Este podcast contou com a produção de Maria Tavares, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 7. Ep. 7 — A inclusão não é só uma palavra bonita

    15:16||Season 1, Ep. 7
    Ana Paula Souza passou mais de 14 anos a trabalhar com crianças e jovens que o sistema educativo nem sempre sabe receber. Começou como professora do ensino regular, mas foi atraída para a educação especial pelos alunos que mais precisavam de ajuda. "Tive alunos que me motivaram a seguir esta área, que eram os que precisavam de algum modo. E eu gostei muito de conversar com eles."Especializou-se no Porto, fez mestrado, e hoje percorre vários estabelecimentos do mesmo agrupamento - do pré-escolar ao 9.º ano. Tem 12 alunos sob a sua responsabilidade. Para cada um existe um dossier de avaliação, um conjunto de medidas educativas específicas e um plano de trabalho que Ana Paula muitas vezes constrói à meia-noite, em casa. "Às vezes trabalho até à uma da manhã a fazer coisas para a escola."O trabalho obriga-a a ser muita coisa ao mesmo tempo. "Temos que ser psicólogos, temos que ser terapeutas, temos que ser tudo." Cada aluno tem uma problemática diferente - cognitiva, motora, emocional - e as respostas têm de ser individualizadas. Os recursos humanos e materiais raramente chegam. "Não conseguimos dar aquilo que nós queríamos dar."Mas a razão para continuar é simples: "A carreira na educação especial é um percurso motivante e gratificante, porque é trabalhar com aquelas pessoas que mais precisam de nós." E é preciso ter perfil para isso. "Porque nem todas as pessoas têm vocação para trabalhar com pessoas com limitações, com deficiências."A inclusão, insiste Ana Paula, não se decreta, constrói-se todos os dias, aluno a aluno. "É uma missão diária."Este podcast contou com a produção de Lídia Felipe, Tiago Silva e Mariana Malta, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 6. Ep. 6 — O sorriso de quem limpa o que os outros não veem

    08:53||Season 1, Ep. 6
    Maria Salomé Duarte Martins tem 55 anos, mora em Viseu, os dois filhos emigraram e ela ficou. Faz sete anos que trabalha como empregada de limpeza numa escola, entra às sete da manhã e sai à uma. "Tenho despesas para pagar, tenho o meu trabalho, já tenho este ritmo, levanto-me às 6 da manhã, e está tudo bem."Salomé tem o 12.º ano e um curso de técnicas educativas. Não foi exatamente uma escolha - foi "uma opção", como ela própria distingue -, mas faz o trabalho com uma disposição que impressiona. "Eu ando sempre a rir, e sou até muito alegre." Toma sempre um café antes de começar, limpa sete salas, dá-se bem com alunos, professores e auxiliares, e conhece o ambiente escolar por dentro e por fora.O trabalho tem as suas sombras. Depois de uma operação à mão direita, sentiu que lhe eram atribuídas mais tarefas do que deveria aguentar. "Psicologicamente fez-me um bocado mal, é verdade." Mas não guarda rancor, prefere focar-se no que controla.O salário mínimo é o que recebe, e não chega. "Acho que aquilo que recebemos não é suficiente." Quanto ao futuro da profissão, é direta: "Não é para toda a gente, porque é mesmo assim - em primeiro lugar, também temos de saber trabalhar em equipa, que não é muito fácil hoje em dia."Nas escolas, as pessoas que asseguram a limpeza são muitas vezes também mães, confidentes e primeiros socorros emocionais de quem passa por elas. Salomé sabe disso e não se queixa.Este podcast contou com a produção de Andrea Soares, Laura Nunes e Matilde Faria, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 5. Ep. 5 — Quando o que tens nas mãos são vidas

    10:25||Season 1, Ep. 5
    Sara Marques acabou de sair da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a licenciatura em enfermagem. O primeiro posto de trabalho foi na Unidade de Cuidados Continuados de Sabrosa, onde os utentes chegam fragilizados a dois níveis - o corpo e a cabeça -, e onde os turnos não têm horas certas. "Não estás com a família desde as três da tarde até ao dia a seguir às 8 horas da manhã. Tens que lidar com todo o tipo de personalidades, vemos muito pouco e ainda estamos a correr vários riscos."Há três turnos: manhã, tarde e noite. O mais exigente é o "tarde-noite" - domingo à tarde até segunda de manhã. Na manhã, banhos e colheitas. Na tarde, conforto e fisioterapia. Na noite, vigília. "Quando estás ali, o que tu tens nas tuas mãos são vidas, não são objetos."Sara ainda não acompanhou nenhuma morte em serviço, mas fê-lo durante o estágio. Descreve a experiência como a necessidade de colocar uma capa: "É como se naquele momento existisse uma capa muito grande que tu metes, e parece que estes sentimentos estão ali prontos. Tu não te podes deixar afetar por aquilo." A parte mais difícil, garante, não é ver, é dar a notícia à família.O que a mantém no trabalho não é o salário - "o que nós recebemos hoje em dia, os subsídios de risco que nós não temos, os horários sobrecarregados" - mas a razão simples de gostar de pessoas. "Continuar a prestar os meus cuidados enquanto conseguir, até porque gosto de conviver com pessoas."Este podcast contou com a produção de Pedro Sousa, Martim Pinheiro e Diogo Sousa, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 3. Ep. 3 — O mar não perdoa, mas prende

    13:23||Season 1, Ep. 3
    José Pedro começou a andar ao mar aos 13 anos, tirou o curso de pescador e aos 16 estava já embarcado de vez. Ainda passou pela Suíça, mas o mar chamou-o de volta. Hoje, com 24 anos de bordo no mesmo barco - herdado do primo do pai, que o herdou do pai -, é o mestre da embarcação. Natural da Póvoa de Varzim, diz que a pesca "vai de descendência" e que já não quer que vá mais."Nós pescadores já nem queremos que os nossos filhos venham para aqui." A razão é simples: os jovens têm outras opções e a vida no mar, aos olhos de quem a conhece por dentro, é dura demais para desejar a outro. O lugar dos portugueses nas traineiras vai sendo preenchido por indonésios - já representam cerca de 85% da mão de obra no setor da Póvoa. "Vai começar a invadir isto, não vamos ter hipóteses."A rotina semanal começa ao domingo à noite, com saída a partir de Matosinhos. José governa o barco quase sem dormir: "Estou sempre aqui acordado. E mesmo quando eu durmo, é com um olho aberto e o outro fechado." Quando regressa a terra, o trabalho fica no cais. "A minha esposa até começa a rir. Não me conta nada: se apanhei peixe, se não apanhei."Nesta vida há medos que ficam. O dia em que uma vaga de dez metros ameaçou engolir um companheiro enredado nas próprias redes. A irmã que sobreviveu ao naufrágio de um arrastão cortado ao meio por um navio de carga. "O mar é um medo que ainda vai. É um medo."Este podcast contou com a produção de Afonso Azevedo, Claudete Salvador e Patrícia Vicente, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 2. Ep. 2 — 65 quilómetros para dar aulas

    13:30||Season 1, Ep. 2
    Fernanda Cardoso parte de casa antes das sete da manhã, leva o filho de 11 anos à escola em Vila Real, junta-se a duas colegas em boleia e percorre 65 quilómetros até à sala de aula. Todos os dias. "A minha rotina diária é complicada. Apesar de não estar muito longe, estou longe."Professora do ensino básico, Fernanda já foi colocada em Lisboa, já trabalhou numa multinacional quando o filho nasceu, e regressou ao ensino quando ele cresceu o suficiente para aguentar a distância. Hoje não recebe qualquer apoio pelo deslocamento - para isso seria preciso que a escola fosse considerada "carenciada" e a distância ultrapassasse os 60 quilómetros com um critério que, na prática, exclui a maioria. "Há sempre um senão."Na sala de aula, os desafios acumulam-se. As crianças chegam mais distraídas, mais ansiosas, mais dependentes dos ecrãs. "Cada vez mais rebeldes, cada vez com mais diagnósticos de hiperatividade. Quem anda só agora anda por amor à camisola, porque gosta mesmo do ensino."O reconhecimento que faltou à profissão veio, paradoxalmente, de uma pandemia. "Só aí é que os pais valorizaram alguma coisa os professores, porque tiveram-nos lá com os vossos filhos em casa e viram o que é." Fernanda não tem ilusões sobre o futuro: "Vamos assistir a uma situação em que qualquer dia não há professores. Aliás, já estamos a assistir."Chega cansada, mas não pode deixar transparecer. "Imagina, eu chegar aqui com 100 quilómetros em cima de mim. Mas eu tenho que estar bem para os miúdos, não tenho?"Este podcast contou com a produção de Carolina Ferreira, Rafaela Campos, Inês Sousa e Mariana Ferreira, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
  • 1. Ep. 1 — O camião é a segunda casa

    15:46||Season 1, Ep. 1
    Pedro Miguel Cabral Francisco tem 22 anos, quatro de estrada e uma infância inteira dentro de uma cabina. Os pais são motoristas há mais de 27 anos - trabalham os dois juntos - e Pedro saiu da maternidade diretamente para dentro de um camião. Cresceu assim, entre rotas e parques de serviço, e apaixonou-se antes de ter carta.Hoje percorre a Europa a fio: Espanha, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Áustria, Dinamarca, República Checa, Polónia, Suécia. O trabalho começa de madrugada e termina muitas vezes no dia seguinte. "Faço muita noite a conduzir, vou ali muito tempo sem ninguém e tenho que me tentar entreter com alguma coisa."A solidão faz parte do ofício, mas as memórias também. Da neve na Suíça, com o camião avariado e uma senhora desconhecida que abriu a porta de casa. De um casal holandês que, ao ver o cartão português sem funcionar, trouxe o hambúrguer, a bebida e ainda disse "não precisa pagar nada". E também do acidente a 13 de novembro de 2024, quando foi colhido em cadeia na autoestrada - "foi a pior experiência que tive pela minha vida".A sociedade pouco reconhece quem move o país. "Nós somos vistos como o lixo da estrada, completamente. As pessoas só têm lembrança do quanto a gente somos importantes a partir do momento em que começam a faltar as coisas na mesa." Pedro sabe que a família paga a conta da ausência: "Eu vou para trazer estabilidade financeira, mas depois acaba por faltar o melhor, acaba por faltar eu."A cabina, com tapetes personalizados e luzes próprias, é a sua segunda casa. "Acaba por ser também a minha vida, praticamente."Este podcast contou com a produção de Bruno Reis, Bernardo Sol e Duarte Cardoso, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.